sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Vamos conhecer o mar? Eu conto pra você como é!


O cenário da praia dos Ingleses no norte da ilha de Florianópolis encanta o menino Gabriel Luiz Ottoni, acostumado com o clima da capital nacional do agronegócio, a cidade de Sorriso, no estado de Mato Grosso. Ele está atento às palavras de sua ex-professora, Cleci Schenkel Martini. “Gabriel, a sua direita tem quatro guarda-sóis. No primeiro tem um senhor sentado que observa duas crianças brincando à beira-mar. Elas têm entre seis e oito anos. Ao lado,está uma família reunida, bebendo e conversando. Há uma moça sozinha debaixo de um guarda-sol localizado mais ao fundo. E no quarto guarda-sol não tem ninguém agora, porque devem estar caminhando ou tomando banho.”
Gabriel sentiu como é a entrada no mar, as ondas indo e voltando e a areia se movimentando sob os pés. Experimentou a dificuldade de subir e descer o paredão formado pela maré. Descobriu o local em que o mar puxa as pessoas e foi alertado a prestar atenção se havia alguém por perto. Identificou lixeiras. Considerou grande a prancha de um dos cinco surfistas que se dispôs a mostrar.
A professora colocava em prática os conhecimentos adquiridos no curso de áudio descrição. Explicou que existem diferentes tipos de areia e que quanto mais compactada,mais perto das ondas se está. Contou que no caminho até aquela praia tinha muros pintados e em outras têm trilhas, sendo necessário passar pelo meio do mato. Orientou a usar a bengala para identificar se o caminho é de madeira ou de concreto, se há dunas e inclinações no terreno. Pelos olhos dela, o menino continuou vendo a paisagem do lugar. “Nos dois lados tem montanhas, nos fundos tem casas e bares. Várias pessoas brincam no mar pegando ondas. No seu lado esquerdo tem um ambulante se aproximando, está empurrando um carrinho em nossa direção. Logo você o ouvirá anunciando o que vende.”
E, de vezes quando, Gabriel questionava: “Tem alguma coisa diferente? Os surfistas ainda estão no mar? Que barulho é esse?”
Antes disso, em 2015,o ex-aluno ficou sabendo que a professora Cleci tinha ido morar em Palhoça, perto do litoral de Santa Catarina. Ele tinha curiosidade em saber como era o mar. Então os pais combinaram que iriam visitá-la e aproveitar para levá-lo para conhecer também o parque de diversões do Beto Carrero. Queriam ir em setembro para comemorar o aniversário de 12 anos. Avaliaram que o frio atrapalharia a diversão. Por esta razão, adiaram para o feriado de novembro.
Esta seria a primeira experiência na praia, se não fosse a surpresa da visita de Luciano Huck. O apresentador do programa da rede Globo quis conhecer pessoalmente o menino cego que participava de competições com seu cavalo, também cego. Encontraram-se no Mato Grosso e depois no Rio de Janeiro. O desejo de conhecer o surfista deficiente visual, Derek Rabelo, não foi realizado porque ele estava fora do Brasil. Mas, Gabriel provou pela primeira vez o sabor da água salgada na Barra da Tijuca. Na praia dos Ingleses ele repetiu o gesto.
O Beto Carrero foi a grande novidade. Ele participou das atividades mais radicais. Repetiu algumas vezes as emoções da torre e da montanha russa. Não gostar de atividades paradas fará com que Gabriel esteja sempre em movimento, vislumbre novos horizontes e continue descobrindo o mundo que está além dos seus olhos.


O aluno Gabriel
Gabriel nasceu com 24 semanas de gestação, pesando 580gramas e medindo 29 centímetros. Por dez dias a mãe ficou internada tentando segurá-lo em seu ventre, mas ele veio ao mundo antes e por isso ficou 100 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Com quatro meses e meio descobriram que ele tinha retinopatia devido à prematuridade, que é um descolamento da retina. Foi um aprendizado para toda a família que sempre o incentivou a superar a limitação imposta pela falta de visão. Por isso, ele toca teclado e já fez natação, judô eecoterapia. Já participou de competição com três tambores com seu cavalo Pé de Pano.
Hoje ele participa do projeto Bombeiros do Futuro. Lá recebe orientações e informações sobre salvamentos aquáticos, altura, sexualidade, combate às drogas, educação de trânsito, símbolos nacionais e direitos da criança. Com ajuda da sua família e de projetos inclusivos, está aprendendo a ter autonomia, superando limites.

A professora Cleci
Cleci Schenkel Martini é formada em Pedagogia e Recursos Humanos. Também cursou Educação Especial e Atendimento Educacional Especializado.
Seu primeiro contato com Gabriel foi quando ele tinha um pouco mais de dois anos. Era o momento de começar a estimulação pré-Braille e o uso do soroban. Outra profissional foi responsável pelas atividades de orientação e mobilidade.
Uma resposta do Gabriel ficou marcada nas memórias da professora. “Quando eu dizia: - Vamos fazer isso, Gabriel? Ele respondia com muita boa vontade: - Boa ideia!”
Ele fazia tudo com muito encantamento. Em uma caixinha de ovos trabalharam a localização dos pontos do Braille. A caixinha tinha rodas. Brincavam que era o ônibus do seu Eugênio e nele entravam os passageiros que eram bolinhas colocadas no local dos assentos. A porta era marcada na parte superior para ele identificar os pontos 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Ele aprendia brincando com as perguntas da professora: “- Quem você vai levar? Onde você vai colocar pra sentar? Quem vai sentar ao lado do ponto cinco?”. E inventava situações:“Vamos pescar no sítio dos meus avós.” Era assim que o menino dava ideias e se mantinha atento e interessado.
“Trabalhar com pré -Braille é assim. Trabalhamos com estimulação de lateralidade, percepção tátil, diminuímos os tamanhos até chegar num ponto de processo de maior agilidade. Depois com objetos menores, vamos diminuindo e reduzindo até chegar ao ponto do Braille”, explicou a professora.
A leitura e escrita em Braille era dificuldade por falta de recursos e tempo. A apostila dele em Braille era escrita em frente e verso e isso confundia a leitura, complicava a percepção. Ele acabou percebendo detalhes com uso de materiais em alto relevo. A confecção dos materiais era a grande dificuldade. Nos cursos montavam livros para auxiliar no processo de aprendizagem.
O menino tinha uma dificuldade inicial de perceber onde começava e terminava a escrita. Por isso, demorava mais tempo para escrever na reglete (instrumento para escrever em Braille), que não era a positiva. Cada vez que ele escrevia, tinha que virar a folha para ler o que tinha escrito. A aquisição da máquina Perkins agilizou a produção de texto, mas o ideal é um computador ledor. Esperança que se renova com o avanço das tecnologias inclusivas.



https://globoplay.globo.com/v/7135200/
.Assista a reportagem do Programa Caldeirão do Huck, clicando aqui.

Um comentário:

  1. Lindo. Maravilhoso o texto, e mais lindo ainda é fazer parte dessa história, conheço esse guerreiro vencedor digno de toda a conquista. Parabéns aos pais do Gabriel grandes amigos de longos anos.

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