O cenário da praia dos Ingleses no norte
da ilha de Florianópolis encanta o menino Gabriel Luiz Ottoni, acostumado com o
clima da capital nacional do agronegócio, a cidade de Sorriso, no estado de
Mato Grosso. Ele está atento às palavras de sua ex-professora, Cleci Schenkel
Martini. “Gabriel, a sua direita tem quatro guarda-sóis. No primeiro tem um
senhor sentado que observa duas crianças brincando à beira-mar. Elas têm entre
seis e oito anos. Ao lado,está uma família reunida, bebendo e conversando. Há
uma moça sozinha debaixo de um guarda-sol localizado mais ao fundo. E no quarto
guarda-sol não tem ninguém agora, porque devem estar caminhando ou tomando banho.”
Gabriel sentiu como é a entrada no mar, as
ondas indo e voltando e a areia se movimentando sob os pés. Experimentou a
dificuldade de subir e descer o paredão formado pela maré. Descobriu o local em
que o mar puxa as pessoas e foi alertado a prestar atenção se havia alguém por
perto. Identificou lixeiras. Considerou grande a prancha de um dos cinco
surfistas que se dispôs a mostrar.
A professora colocava em prática os
conhecimentos adquiridos no curso de áudio descrição. Explicou que existem
diferentes tipos de areia e que quanto mais compactada,mais perto das ondas se
está. Contou que no caminho até aquela praia tinha muros pintados e em outras
têm trilhas, sendo necessário passar pelo meio do mato. Orientou a usar a
bengala para identificar se o caminho é de madeira ou de concreto, se há dunas
e inclinações no terreno. Pelos olhos dela, o menino continuou vendo a paisagem
do lugar. “Nos dois lados tem montanhas, nos fundos tem casas e bares. Várias
pessoas brincam no mar pegando ondas. No seu lado esquerdo tem um ambulante se
aproximando, está empurrando um carrinho em nossa direção. Logo você o ouvirá
anunciando o que vende.”
E, de vezes quando, Gabriel questionava:
“Tem alguma coisa diferente? Os surfistas ainda estão no mar? Que barulho é esse?”
Antes disso, em 2015,o ex-aluno ficou
sabendo que a professora Cleci tinha ido morar em Palhoça, perto do litoral de
Santa Catarina. Ele tinha curiosidade em saber como era o mar. Então os pais
combinaram que iriam visitá-la e aproveitar para levá-lo para conhecer também o
parque de diversões do Beto Carrero. Queriam ir em setembro para comemorar o
aniversário de 12 anos. Avaliaram que o frio atrapalharia a diversão. Por esta
razão, adiaram para o feriado de novembro.
Esta seria a primeira experiência na
praia, se não fosse a surpresa da visita de Luciano Huck. O apresentador do
programa da rede Globo quis conhecer pessoalmente o menino cego que participava
de competições com seu cavalo, também cego. Encontraram-se no Mato Grosso e
depois no Rio de Janeiro. O desejo de conhecer o surfista deficiente visual, Derek
Rabelo, não foi realizado porque ele estava fora do Brasil. Mas, Gabriel provou
pela primeira vez o sabor da água salgada na Barra da Tijuca. Na praia dos
Ingleses ele repetiu o gesto.
O Beto Carrero foi a grande novidade.
Ele participou das atividades mais radicais. Repetiu algumas vezes as emoções da
torre e da montanha russa. Não gostar de atividades paradas fará com que
Gabriel esteja sempre em movimento, vislumbre novos horizontes e continue
descobrindo o mundo que está além dos seus olhos.
O aluno
Gabriel
Gabriel nasceu com 24 semanas de
gestação, pesando 580gramas e medindo 29 centímetros. Por dez dias a mãe ficou
internada tentando segurá-lo em seu ventre, mas ele veio ao mundo antes e por
isso ficou 100 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Com quatro meses e meio descobriram que
ele tinha retinopatia devido à prematuridade, que é um descolamento da retina. Foi
um aprendizado para toda a família que sempre o incentivou a superar a
limitação imposta pela falta de visão. Por isso, ele toca teclado e já fez
natação, judô eecoterapia. Já participou de competição com três tambores com
seu cavalo Pé de Pano.
Hoje ele participa do projeto Bombeiros
do Futuro. Lá recebe orientações e informações sobre salvamentos aquáticos, altura,
sexualidade, combate às drogas, educação de trânsito, símbolos nacionais e
direitos da criança. Com ajuda da sua família e de projetos inclusivos, está aprendendo
a ter autonomia, superando limites.
A
professora Cleci
Cleci Schenkel Martini é formada em
Pedagogia e Recursos Humanos. Também cursou Educação Especial e Atendimento
Educacional Especializado.
Seu primeiro contato com Gabriel foi
quando ele tinha um pouco mais de dois anos. Era o momento de começar a
estimulação pré-Braille e o uso do soroban. Outra profissional foi responsável
pelas atividades de orientação e mobilidade.
Uma resposta do Gabriel ficou marcada
nas memórias da professora. “Quando eu dizia: - Vamos fazer isso, Gabriel? Ele
respondia com muita boa vontade: - Boa ideia!”
Ele fazia tudo com muito encantamento. Em
uma caixinha de ovos trabalharam a localização dos pontos do Braille. A caixinha
tinha rodas. Brincavam que era o ônibus do seu Eugênio e nele entravam os
passageiros que eram bolinhas colocadas no local dos assentos. A porta era
marcada na parte superior para ele identificar os pontos 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Ele
aprendia brincando com as perguntas da professora: “- Quem você vai levar? Onde
você vai colocar pra sentar? Quem vai sentar ao lado do ponto cinco?”. E inventava
situações:“Vamos pescar no sítio dos meus avós.” Era assim que o menino dava
ideias e se mantinha atento e interessado.
“Trabalhar com pré -Braille é assim.
Trabalhamos com estimulação de lateralidade, percepção tátil, diminuímos os
tamanhos até chegar num ponto de processo de maior agilidade. Depois com
objetos menores, vamos diminuindo e reduzindo até chegar ao ponto do Braille”,
explicou a professora.
A leitura e escrita em Braille era
dificuldade por falta de recursos e tempo. A apostila dele em Braille era escrita
em frente e verso e isso confundia a leitura, complicava a percepção. Ele acabou
percebendo detalhes com uso de materiais em alto relevo. A confecção dos
materiais era a grande dificuldade. Nos cursos montavam livros para auxiliar no
processo de aprendizagem.
O menino tinha uma dificuldade inicial
de perceber onde começava e terminava a escrita. Por isso, demorava mais tempo
para escrever na reglete (instrumento para escrever em Braille), que não era a
positiva. Cada vez que ele escrevia, tinha que virar a folha para ler o que
tinha escrito. A aquisição da máquina Perkins agilizou a produção de texto, mas
o ideal é um computador ledor. Esperança que se renova com o avanço das
tecnologias inclusivas.
.Assista a reportagem do Programa Caldeirão do Huck, clicando aqui.



Lindo. Maravilhoso o texto, e mais lindo ainda é fazer parte dessa história, conheço esse guerreiro vencedor digno de toda a conquista. Parabéns aos pais do Gabriel grandes amigos de longos anos.
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