Frei Rogério é uma comunidade localizada no município de Concórdia, no oeste de Santa Catarina.
Eu sou Ana Lúcia Pintro. Comecei a minha carreira no Magistério em 1993 na Escola Multisseriada de Frei Rogério e lá trabalhei por três anos.
Naquela época, a Secretaria Municipal de Educação tinha um projeto em que devíamos entrevistar pessoas da comunidade. Hoje, não tenho lembrança dos critérios que usei para visitar apenas sete famílias. Provavelmente tinham vinculo direto com meus alunos da época. Eu guardei os registros manuscritos e resolvi recuperar os relatos para criar este podcast e salvar parte da história.
Esta é a maneira que encontrei para participar da comemoração dos 100 anos da comunidade!
Acesse a playlist com os relatos e conheça um pouco da história da comunidade de Frei Rogério, preservada nas lembranças e nas histórias contadas por nossos antepassados.
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Relação dos episódios
1. História da Comunidade Frei Rogério
2. Pedro Pasqualotto Filho e Terezinha Pasqualotto
3. Fedele Bressan e Elisa Bressan
4. Anastácio Pasqualoto e Vanis Leocádia Pasqualoto
5. Maria Bassi de Bortolli
6. Olivo Albiero e Paulina Battistela Albiero
7. Edwiges Eugênia Basso
8. Aurélio Battistella e Assunta Albiero Battistela
9. Alice Lanzarin
10. João Balbinot e Angela Taffarel Balbinot
11. Sinogrande Sebastião Lanzarin e Theresa Verardo
12.Professores e professoras (Depoimentos)
RETALHOS DA HISTÓRIA DA COMUNIDADE DE FREI ROGÉRIO
1. O Desbravamento e a Chegada dos Pioneiros
Frei Rogério é uma comunidade localizada no município de Concórdia, no oeste de Santa Catarina.
A história da localidade originalmente conhecida como "Arroio Jano" (ou "Arroio Janeca") tem início na década de 1920, em um território situado a 6 km ao leste de Tamanduá, 9 km de Barra Bonita e 12 km de Rancho Grande. A área era composta por cerca de 25 colônias de terras pertencentes à Companhia Theodoro Capelli Irmãos de São Paulo, que as havia adquirido da Companhia da Estrada de Ferro (provavelmente a Leopoldina Railway). Antes da colonização italiana, a região era coberta por uma densa mata virgem e habitada por cerca de seis famílias de caboclos.
A ocupação pelos colonos imigrantes começou em dezembro de 1926, com a chegada da família do Sr. Francisco Bassi. Logo em seguida, entre 1927 e 1928, os Srs. Sebastião Lanzarin e José Batistella vieram de Guaporé (RS) para examinar os lotes, agradaram-se das terras e efetuaram a compra. Nos dez anos seguintes, novas famílias fixaram residência no local, incluindo a de Pedro Pasqualoto (vindo de Crus e Sousa e Guaporé), a de Roque Batistella, Ernesto Bizon, João Balbinott e os irmãos Augusto, Pedro, Adolfo e João Debortolli.
2. A Fé Comunitária e as Primeiras Capelas
A vida religiosa começou de forma modesta: a partir de 1927, os moradores reuniam-se aos domingos para rezar o terço na casa de Sebastião Lanzarin.
Em 1933, cinco famílias uniram forças e construíram a capela primitiva, uma estrutura modesta de madeira medindo 6x5 m, erguida em um terreno cedido por Sebastião Lanzarin. As famílias fundadoras foram as de José Batistella, Sebastião Lanzarin, Francisco Bassi, Pedro Pasqualoto e Antonio Lopatini. No dia 16 de julho de 1933 (Dia de Nossa Senhora do Carmo), rezou-se o primeiro terço no local. Para custear a celebração, Francisco Bassi e Sebastião Lanzarin doaram uma novilha e um boizinho.
A Primeira Santa Missa foi celebrada em 1935 pelo Frei Winfredo Morlath, da ,Ordem dos Frades Menores vindo de Alto Veado. Quando o Vigário de Concórdia, Frei Meinolfo Ellers, da Ordem dos Frades Menores, passou pelo local e avistou a edificação de tábuas serradas e comentou: "Fizeram um bom paiol".
Em 1938, Frei Meinolfo enviou para a capela a imagem de São Francisco de Assis, paga pelos sócios com doação de milho e trigo, tornando o santo o padroeiro local (o que fez a linha ser chamada temporariamente de Linha São Francisco). Naquele mesmo ano, celebraram-se as primeiras comunhões de Mafalda, Catarina e Miguel Lanzarin, seguidas pela de mais 13 crianças em outubro. A comunidade recebia visitas pastorais periódicas de diversos padres franciscanos, como Frei Jordão Buschhoff, Frei Valério Kirsch, Frei Diodoro Kaufhold, Frei Valentine Tambosi, Frei Euguelberto Wanners, Frei Albino Chardong e Frei Achilles Klockner.
Com o crescimento do povoado, em 1948 os 16 sócios existentes desmancharam a capela primitiva. Sob a coordenação do carpinteiro George Rauber, vindo da Canhada Funda, construíram uma nova capela de 7metros por 10 metros, em um terreno doado por Sebastião Lanzarin à Mitra Diocesana, situado cerca de 500 metros mais próximo da estrada principal. A missa campal de inauguração foi celebrada pelo Vigário Frei Achilles Klockner. A atual igreja da comunidade seria inaugurada anos mais tarde, em 30 de junho de 1985.
3. A Mudança do Nome para "Linha Frei Rogério"
No dia 3 de outubro de 1950, o Presidente da Câmara de Vereadores de Concórdia, Domingos Machado de Lima, alterou oficialmente o nome da localidade para "Linha Frei Rogério". A mudança foi uma homenagem a Frei Rogério Neuhaus, frade capuchinho, ou seja franciscano, reconhecido, na época, por sua atuação como apaziguador e mediador pacífico durante os conflitos da Guerra do Contestado.
4. O Desenvolvimento da Educação e o Impacto da BR-153
Preocupados com a instrução dos filhos, os moradores contrataram inicialmente um professor particular, o Sr. João Ziliotto, que lecionou durante um ano improvisadamente no interior da primeira capela.
Em 10 de agosto de 1952, foi inaugurada a primeira escola oficial, cujo custo total foi de 22 contos de réis (ou 2 milhões de cruzeiros). O terreno foi doado por Averilho Gemelli. Metade do valor da obra foi pago pela prefeitura e a outra metade foi custeada por 12 sócios, que contribuíram com 400 mil réis cada: Sebastião Lanzarin, Gildo Battistella, Fioreto Marcolina, Roqueto Munaretto, João Battistella, Ernesto Bison, João Balbinott, Thealmo Güeler, Aurélio Battistella, Augusto De Bortoli, Adolpho De Bortoli e Averilho Gemelli.
O prédio escolar passou por várias transformações ao longo das décadas:
- 1965: O governo estadual construiu uma nova sala de aula em madeira beneficiada acima da escola antiga.
- 1975: A abertura da rodovia BR-153 cortou a localidade em uma faixa de desapropriação de 100 metros no sentido norte-sul, deixando a escola dentro da faixa de domínio federal. Em convênio, o estado e o município removeram a escola cerca de 50 metros para o leste, em terreno doado pelos Srs. Trajano, Alcebíades e Lauri Celant.
- 1977: A antiga escola de 1952 foi desmanchada e seu espaço foi aproveitado para a ampliação do barracão de festas da comunidade.
5. Esporte, Lazer e o Recomeço Comunitário
A infraestrutura social da comunidade continuou a expandir-se no final do século XX:
- Em 21 de abril de 1979, inaugurou-se uma quadra polivalente, fruto de um convênio entre a prefeitura e o governo do estado, atendendo a um pedido formulado pelas lideranças locais ao prefeito Ivo Reich, contando com a mão de obra direta da comunidade.
- Em 1993, um provável acidente destruiu o barracão de festas em um incêndio. Sem desanimar, os moradores uniram-se novamente e deram início imediato à reconstrução de um novo pavilhão comunitário, reafirmando o espírito de cooperação que marcou os pioneiros desde 1926.
6. O Folclore Sertanejo e a "Caça do Tigre"
Nos primeiros anos de povoamento, o cotidiano dos moradores era marcado pelo isolamento e pelo confronto direto com a fauna silvestre. O episódio mais memorável dessa época ocorreu na década de 1920 e ficou conhecido como a "Caça do Tigre".
Certo fim de tarde, o colono Carlos Sorgart foi colher pinhões na propriedade de Eugênio Munaretto — que havia derrubado um pinheiro para extrair tabuinhas para o telhado de um paiol. Sorgart estava acompanhado de seus dois cães de caça, Nero e Sibarba, quando foi surpreendido por um enorme jaguar (popularmente chamado de "tigre"). O animal devorou os dois cães imediatamente. Aterrorizado, Sorgart disparou dois tiros de garrucha e correu até a casa de José Batistella para pedir socorro.
Na manhã seguinte, organizou-se uma expedição formada por José Batistella (armado com um revólver calibre 32 e uma espingarda 36 de repetição), Carlos Sorgart (garrucha calibre 38), o caboclo Sebastião Felipe (espingarda Taquari) e, mais tarde, João De Bortoli e João Battistella. O animal, de barriga cheia, acuou-se no alto de um ingazeiro. Após ser atingido por vários disparos, o felino saltou do ingazeiro. Durante a queda, Sebastião Felipe tropeçou no mato e gritou assustado: "Pelo amor de Deus, me cuidem, que é dos caboclos que ela gosta mais!". O animal ainda mordeu algumas taquaras antes de ser abatido definitivamente por José Batistella com tiros de revólver na cabeça.
O animal pesou 84 kg. A notícia atraiu moradores de várias localidades e o fotógrafo Hugolini veio a cavalo de Concórdia para registrar o feito. José Batistella ficou com o couro e Sebastião Felipe com a carne, que pretendia usar para fazer sabão, mas acabou promovendo uma festa comunitária. A caçada tornou-se lendária, sendo imortalizada anos mais tarde na trova "Décima", composta por Alberto Battistella.




