A "Corrida dos Perebas" desperta a imagem de algo divertido, irreverente e com sinais de resistência. Nas ruas do bairro Abraão, em Florianópolis, esse evento ganhou o sentido da superação, da inclusão e da celebração da vida. A primeira corrida nasceu há 24 anos, por sugestão de um padre corredor. Mas, quem organiza e faz acontecer é Analto Romalino Cunha, conhecido como Pereba.
Vamos conhecer um pouco da sua história? Ele perdeu a visão de um dos olhos aos onze anos, envergonhado e discriminado, se fechou em uma gaiola. Descobriu o esporte aos 22 anos e tem em seu currículo 1586 participações em corrida e 96 em triatlo. Correr, pedalar e nadar o ajudou a voar pelo mundo e a encontrar seu valor pessoal.
Após uma década de provas de triatlo, travessias e maratonas, Pereba passou a dedicar-se exclusivamente a corridas rústicas de rua. As datas festivas como Carnaval, Páscoa, São João e Natal são motivos para ele reunir praticantes da atividade de todas as idades. O nome do evento sugere que a performance não é tão importante. Também evoca um certo senso de solidariedade entre os que não brilham em manchetes de jornais, mas que seguem firmes, correndo para sarar feridas, sem medo de ficar para trás e buscando amparo na alegria de compartilhar um prazer comum que dá valor à existência humana.
O que era uma brincadeira virou tradição. No último domingo de junho, aproximadamente 50 competidores aceitaram participar de uma corrida de cinco quilômetros. As dores que machucam as pessoas, também podem colocá-las em movimento. Lá estava uma mulher que começou a andar, e depois a correr, por sugestão médica para resolver o problema de labirintite. Lá estava o motorista de caminhão aposentado que buscou algo para afastar a depressão. Lá estava um jovem com deficiências físicas que são menores do que sua força de vontade. Lá estavam quatro homens internados em casa terapêutica buscando um prazer saudável que pode estancar os males que as drogas causam. Lá estava Pereba incentivando tanta gente a não parar a vida.
A estrutura do evento era simples e improvisada, mas funcional. As inscrições, com valor simbólico, demoravam por conta da conexão instável, que dificultava o uso de aplicativos bancários. As fichas dos corredores eram reaproveitadas, com corretivos cobrindo nomes de edições passadas. Os crachás com presilhas em bom estado eram escassos. Os números para colocar no peito eram escolhidos aleatoriamente em uma caixa de papelão. Troféus e medalhas vinham de sobras recicladas e doações. O prêmio principal era um saco de doces. Para quem não está acostumado, parece bagunçado, mas há ali uma lógica precisa de fazer o máximo com o mínimo. Ninguém reclama. Todos agradecem!

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