Arte com plantas desidratadas promove desenvolvimento sustentável com apoio de famílias da comunidade da Guanabara
Ana Lucia Pintro
Treviso
Foto: Nilton Alves
Legenda da foto 01: Florista aproveita plantas nativas e cultivadas, para criar guirlandas, buquês, arranjos duradouros e objetos decorativos.
Legenda da foto 02: Famílias Lorenson, Piati e Ariati são parceiras no projeto do Celeiro da Expressão.
Um Celeiro-Ateliê foi construído no Sítio Colline Di Fiori, localizado na base do morro do Chapéu do Mago, conhecido também como bico do Garrafão. Antigos colonizadores, imigrantes italianos, chamavam a região de Vale del Mago. Com o passar do tempo, passou a se chamar Guanabara. Para chegar lá é preciso trafegar pela rodovia Valdemago até passar pelo portal de entrada que destaca os cem anos de história do lugar, distante a cerca de onze quilômetros do centro da cidade.
Na paisagem verde, destacam-se uma casa amarela e um celeiro de madeira. Imponentes paredões da Serra Geral cercam as construções. A propriedade está localizada na divisa da Reserva Biológica Estadual do Aguaí, perto de uma das áreas de recarga do aquífero Guarani, onde correm as águas do rio Congonhas. É neste paraíso que mora uma psicóloga e florista que tem flor até no sobrenome, Siomara Floriani. Já faz três anos que a mulher do carro laranja chamou a atenção dos moradores do Vale Del Mago.
Siomara teve um consultório de psicoterapia familiar durante 25 anos em Curitiba, capital do Paraná. Morou 12 anos em Urubici, na serra catarinense. No entanto, a paisagem e as belezas naturais de Treviso a tocaram profundamente. Um dia, um casal de amigos a levou até aquele lugar. Quando ela viu, foi tomada por uma emoção intensa, sensação de transbordamento, chorou sem entender o motivo e sentou-se no chão, em silêncio, com a certeza de que aquele seria seu novo lar. Descobriu que a propriedade não estava à venda. Era terra herdada por muitas gerações.
Mesmo assim decidiu morar naquelas bandas e alugou uma casa na comunidade da Forquilha. Visitou mais de dez sítios, fez propostas para comprar e nenhum negócio foi fechado. Os donos da terra desejada a procuraram algumas vezes, queriam aconselhamento psicológico, devido a sua formação profissional. Em uma dessas visitas, eles colocaram a escritura em suas mãos. Ofereceram os 28 hectares, muito mais do que os dois que ela sonhava, por isso 95% da área pode ser destinada para preservação. Estabeleceram um preço justo e deram prazo. A surpresa veio dos dois filhos, que pediram para participar da compra. O gesto marcou o destino, pois agora a terra não era só dela. Iniciava uma nova história familiar.
Quando Siomara fez a mudança, havia uma casinha rosa nunca habitada, cercada por arame farpado e animais soltos. A terra era arrendada para a criação de gado. Antes, usava-se grande quantidade de veneno no pasto, prática que contrariava a proposta da nova proprietária de preservar e cuidar da área. O gado e o veneno saíram e deram lugar às flores e muito trabalho braçal para vencer o que as ervas daninhas que os moradores chamam de imundiça.
Arte com flores e elementos espontâneos.
A florista aprendeu a lidar com as plantas intuitivamente e na prática. Em 2011, quando morava em Urubici, atendendo a um pedido, reuniu capins e flores e os prendeu com um barbante. Os clientes gostaram. Ela nunca mais parou.
A colheita das flores é feita no ponto ideal de maturação, os maços são preparados e secos naturalmente em local ventilado e sem luz direta, sem uso de produtos químicos ou tingimentos. Cada haste, cápsula de cedro ou folha dourada de milho é tratada com cuidado antes de se transformar em guirlandas, buquês, arranjos duradouros e objetos cheios de significado. “Aprendi a trabalhar com flores silvestres, macela, pendão de milho, aveia, azevém, sementes, trigo selvagem, casca de palmeira, capins, cipós e outros elementos naturais. Fui testando o que seca bem, o que se desmancha e o que pode ser aproveitado. Os produtos, feitos com flores desidratadas e materiais sustentáveis, carregam não só beleza, mas também a energia do tempo, da terra e das mãos da comunidade”, comenta Siomara.
Mãos unidas… criam maravilhas
Siomara bateu nas portas das casas dos vizinhos das famílias Lorenson, Piati e Ariati em busca de ajuda para roçar e abrir trilhas na floresta. Foi o começo de uma história que despertou no grupo um novo olhar para a vegetação nativa e para a importância do cultivo sustentável, além, de promover um trabalho colaborativo e ressignificar o sentido das relações humanas. Quando tem evento todos se mobilizam para roçar o terreno, limpar o Celeiro, organizar o estacionamento, produzir os alimentos, organizar as vendas e preparar cajados para as trilhas.
A florista destaca que a parceria com as famílias é tão forte que basta lançar uma ideia para que todos se animem e colaborem. Os casais atuam em diferentes frentes do projeto, assumindo responsabilidades que se complementam para a organização dos eventos. Ela faz questão de esclarecer que o envolvimento das três famílias não surgiu de um projeto previamente idealizado. “Não houve planejamento, imposição ou busca deliberada por parceiros. Tudo aconteceu de forma natural. Fomos nos aproximando aos poucos. Eu fui sendo acolhida e acolhendo à medida que reconhecia os talentos e as habilidades de cada um”, comenta.
Vizinhos parceiros
Rodinei Lorenson é aposentado, trabalhou durante quinze anos no subsolo da Carbonífera Metropolitana. Sempre morou no sítio onde nasceu. Cria gado, porcos e galinhas. Cultiva batata-doce, milho, abóbora e mantém uma horta farta. A produção é destinada ao consumo familiar. Sua primeira resposta ao pedido de ajuda, foi: “Não conte comigo, já tenho muito trabalho”. Mudou de ideia. Ele construiu a garagem da casa e o celeiro que Siomara necessitava para desenvolver sua arte. Também confecciona vassouras, cestas e tabuleiros. Além disso, prepara uma receita de família conhecida como campari.
Siomara diz que Rodinei é um arquiteto da natureza pela forma que ele entra na mata e os cuidados que tem com as plantas. Mesmo sem nunca ter trabalhado como pedreiro ou marceneiro, ele mostrou suas habilidades na engenharia civil. Rodinei planejou e construiu o Celeiro. Demorou um ano para ficar pronto. O espaço principal mede 14 metros de comprimento e 6 metros de largura. O projeto prevê uma área de 126 metros quadrados. A cozinha e as varandas fazem parte da próxima etapa.
Ele próprio colheu os eucaliptos e cortou as estruturas como troncos, tábuas e tesouras. Preferiu trabalhar sozinho, sem ajudantes fixos, contando apenas com a colaboração de outras pessoas em fases mais complicadas da obra. “Eu queria construir um espaço artesanal para meu trabalho com flores. Pedi que fosse feito com madeira, pedra, vidro e tábuas largas no assoalho. Quando eu perguntei onde poderia comprar pedras, ele olhou pra mim, riu, saiu e voltou com o trator cheio”, conta Siomara.
Sandra Losso Lorenson, esposa de Rodinei, conta que sentiu uma emoção muito forte no dia que viu o caminhão de mudança da florista passando. Secando as lágrimas, faz questão de expressar o valor da amizade que surgiu e das experiências que juntas viveram. “Eu não sei fazer misturas e comidas boas. Descobri que o meu talento é a faxina e a organização. Nunca pensei que um dia eu fecharia minha casa e sairia limpando a casa de outra pessoa, mas descobri que isso me faz bem.”
Janice Piati e Rosana Ariati, irmãs de Rodinei, contam com o apoio dos maridos, Dino Piati e Adilso Ariati, que também colaboram nas atividades em torno do Celeiro.
Janice e Dino contribuem plantando estatices, sempre-vivas e linho e também se dedicam à culinária regional preparando cafés e almoços. Eles são os responsáveis pela produção de pão caseiro, salame, conservas, compotas, doces, cavaquinhos salgados e pela tradicional crostata italiana. “Trabalhei durante 28 anos na mineração. Eu e minha esposa temos experiência em servir almoços que organizamos na comunidade. Pensei em descansar, mas fui atraído a colaborar com este projeto. Fiz até um curso de turismo rural”, informa Piati.
Rosana faz bolachas com a farinha de milho que ela mesma produz e as recheia com goiabada ou doce de leite. No entanto, a grande atração são as versões com flores comestíveis. Após testar uma receita compartilhada, passou a cultivar begônias, amores-perfeitos e brincos-de-princesa para enfeitar seus produtos. “Esta não é nossa principal renda. Fazemos por prazer e nos sentimos seguros com as orientações recebidas da Siomara”.
O último colaborador chegou a menos de um ano. Elio Cagnato, geógrafo, acompanha os visitantes nas trilhas e apresenta os elementos da natureza. Vivendo na região tem aprendido muito com os moradores locais. “Estou aprendendo uma nova forma de viver e de compartilhamento de talentos com esta comunidade. Todo dia um novo desafio e novas experiências são apreendidas”.
Agenda de visitas
A abertura do Celeiro para a comunidade aconteceu na primavera de 2023, durante um evento organizado pelo Instituto Alouatta, que reuniu especialistas e entusiastas para a observação de aves. Depois disso foram recebidos mentores que acompanham pessoas em transição de carreira, ensaios fotográficos e pessoas de diversos lugares.
Interessados podem agendar visitas ou vivências em grupo, com propostas de caráter intimista e afastadas do turismo de massa. Os horários são pensados para permitir um acolhimento tranquilo, com tempo para sentar, conversar ou simplesmente apreciar o silêncio e a beleza do lugar. As atividades incluem visitas ao celeiro, trilhas sensoriais que podem ir até a cachoeira e a degustação de um café ou almoço com culinária típica local.
Agenda e reservas podem ser acessadas pelo principal canal de comunicação que é o Instagram: @siomara.floriani.
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