quarta-feira, 15 de março de 2023

Com ou sem glamour?


Ela detestava trabalhar na plantação de milho, parou de estudar aos onze anos para cuidar do quarto irmão que ia nascer e dizia que ia ser desenhista para sair daquela vida. Acreditava que poderia ser uma artista só porque um dia foi elogiada por ter desenhado a Mulher Maravilha e o Incrível Hulk. Foi dentro do chiqueiro que encontrou silêncio para ler e decorar um texto da peça de teatro da escola. Tentava cantar as músicas que ensaiava na aula de catecismo e não desobedeceu a mãe ao ouvir o pedido para que parasse com aquela desafinação. Tentou fazer esculturas com a argila encontrada perto da fonte de água que abastecia sua casa. Aprendeu a fazer crochê, tricô e bordar com os poucos recursos que tinha, pois as linhas eram caras. Finalmente, os aplausos de umas trinta pessoas chegaram no Dia das Mães quando declamou um poema sobre Nossa Senhora.

Não demorou para que seus sonhos de criar, representar e desbravar o mundo pela arte sumissem de seus pensamentos. Tudo era limitado, distante e complicado. Não havia um futuro glamouroso. As portas pelas quais ela queria passar foram fechadas, mas as janelas pelas quais ela podia olhar foram se abrindo. Livros, teatro, cinema, exposições, música e lugares diferentes foram entrando em seu repertório existencial, aos poucos. O trabalho (sem muita arte) também! Então, não teve muito tempo para conhecer o mundo do jeito que gostaria...

Teve um momento em sua vida que pareceu um sonho. Ela estava olhando atenciosamente para uma das obras mais famosas da história da arte. Então, um guarda chamou sua atenção avisando que era proibido sentar no chão daquele lugar. Ele parecia ser o mesmo “homem de preto” que interrompeu a conversa do papa Bento XVI com o cardeal argentino Jorge Bergoglio no filme Dois Papas. E ela pensou que se Michelangelo estivesse lá, não deixaria aquilo acontecer, conversaria sobre seus desenhos e talvez, desse permissão para se sentir em casa, dentro da Capela Sistina.

O que é preciso para ser um cidadão do mundo? Ser como o italiano Michelangelo ou como o brasileiro Juarez Machado? Ela não sabe avaliar porque acha complexo demais os espaços que ambos ocupam. Porém, tem uma certeza. O brasileiro vive numa época em que um artista se ramifica em diversos artistas. Por isso, o pintor é também escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo e ator.

Ela teve a oportunidade de conhecer 20 pinturas de Juarez Machado numa exposição realizada na cidade onde mora. Foi porque quis ver de perto e sentir a vibração do criador. Mesmo sabendo que cada pessoa deve deixar sua sensibilidade explorar as produções artísticas, resolveu pedir ajuda para entender seus sentimentos. Olhando as pinturas, ela viu glamour nas taças de vinho, nos gestos das personagens, nos bailarinos com corpos esculturais e inclusive no “quadro do Vaticano”.

É importante dizer que ela é uma acadêmica de jornalismo e foi desafiada pelo curador da exposição a fazer perguntas que o surpreendesse. Ela fez um comentário questionador sem esta intenção e foi surpreendida pelo mesmo. Quando ele ouviu que ela via glamour nas pinturas de Juarez Machado, respondeu que não eram obras elitistas e fúteis como estava interpretando. Então, ela pensou: “Se Juarez Machado estivesse aqui, ficaria chateado comigo também? Será que ele iria me ajudar a entender porque muitos dos seus desenhos não tem boca e tem olhos vazados? Ou, simplesmente faria um gesto sugerindo que eu me sentasse no chão e olhasse com mais atenção para o detalhe de cada pintura?”.

É possível que falte pouco para ela admirar o artista brasileiro que nasceu há 82 anos, em Joinville, no estado de Santa Catarina. Talvez, ela logo compreenderá porque ele é conhecido como um artista que faz críticas sociais irreverentes. E, quem sabe, ainda consiga provar que glamour não é sinônimo de futilidade.

 



 

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