quinta-feira, 20 de junho de 2024

Paixão Hereditária: As Memórias da Família Teza com o Criciúma Esporte Clube


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Relato de Eliane Teza Bortolotto, 56 anos, filha de Donildo e Lenir Teza e neta de Hilário Teza. Católica, casada, mãe, professora, protetora de cães e gatos. Moradora do Bairro Brasília quase a vida inteira e eternamente torcedora do Criciúma Esporte Clube.

A família Teza guarda um álbum de memórias afetivas do Criciúma Esporte Clube com registros de acontecimentos que viveram juntos por quase cinco décadas. Eliane Teza Bortolotto, uma das integrantes da família, compartilha as lembranças de torcedora do Tigre que viveu ao lado dos irmãos Everaldo, Ernani e Edmara, do pai Donildo Teza, 79 anos, e da mãe Lenir De Nez Teza, 76 anos. Quase sem fotos para recordar, ela garante que é fácil falar das coisas que estão guardadas no lugar das boas lembranças do fundo do coração.

A paixão da família pelo futebol é uma herança deixada pelo avô paterno Hilário Teza, torcedor do Palmeiras. Todos os seus descendentes foram crescendo palmeirenses. Moravam em Urussanga, na comunidade de Palmeira do Meio, numa época em que a cidade de Criciúma era para eles um lugar distante e desconhecido. A mudança da família para a cidade de Criciúma aconteceu em 1970. Um ano antes, Donildo chegou à cidade para trabalhar na construção das instalações da cerâmica Cecrisa. Morador novo na cidade, aos poucos foi descobrindo o Comerciário Esporte Clube e acompanhando as transições até chegar ao Criciúma Esporte Clube. Enquanto isso, o coração verde recebia pinceladas amarelas. Ele foi se apaixonando pelo time e levou os filhos pelo mesmo caminho.

Eliane tem saudosas memórias de estar na pia lavando a louça, ainda muito pequena, enquanto o pai pedia palpites dela para preencher o cartão da loteria esportiva. Mesmo sem fazer ideia de quem eram aqueles times com nomes estranhos, inocentemente arriscava resultados e sutilmente foi descobrindo o futebol. Ele comprava a revista Placar a cada novo campeonato. Tinha uma tabela para preencher os resultados dos jogos do Brasileirão. Ela o via pintar com capricho as bolinhas dos resultados. “As vitórias eram pintadas de azul, os empates de vermelho e as derrotas ficavam em branco”.

Eliane lembra da primeira vez que o pai a levou ao estádio Heriberto Hulse. O Criciúma jogou contra o Internacional de Lages num campeonato catarinense. Não era uma partida importante. Ela, quase adolescente, sempre imaginou como era o campo, mas ficou extremamente impressionada diante da realidade. “Eu achei aquilo tão grande, tão grande, tão grande! Aquela grama tão verde, tão verde, tão verde! E um verde tão claro, tão claro, tão claro! Tudo muito brilhante, muito brilhante!”

Em dia de jogo a casa da família acordava com outra atmosfera. O pai se fardava cedo com o uniforme do time. Havia uma preparação meticulosa durante a semana com atenção à data, ao horário, os cuidados com a logística para garantir que toda a família tivesse a carona, a carteirinha ou o ingresso. Os jogos aconteciam sempre à tarde ou à noite. “Era emocionante observar meu pai ligado no rádio para ganhar ingresso. Tinha que responder uma pergunta sobre o Criciúma para entrar na lista do sorteio. Era uma luta discar o número do telefone e acertar o tempo da ligação, que entrava ao vivo no ar para os ouvintes da programação esportiva”.

Lenir, mãe de Eliane, sempre soube do amor do futuro marido pelo futebol. Naqueles tempos difíceis, aos domingos quando ia namorar, Donildo costumava levar as pilhas no bolso da camisa para ouvir os jogos no rádio da sogra, que não deixava gastar as dela. Foram mais de três anos de namoro dividindo a atenção do amado com sua outra paixão, o futebol. Depois de casados, ela o aconselhava a ficar em casa nos dias muito frios. Ele resistia, vestia duas calças, colocava várias blusas, mais uma jaqueta, quase não se mexia. Ela o protegia com mais uma touca de lã e um boné. Só apareciam os olhos. E insistia: “Fica embaixo das cobertas, escuta o jogo no rádio, é a mesma coisa”. Até que um dia ela descobriu que não era a mesma coisa. Sua primeira vez no estádio foi motivada por uma entrada que ganhou numa promoção do Dia das Mães. Depois disso ficou viciada. Aos poucos, ela que tentou se manter santista, influenciada pela época áurea de Pelé, foi vencida pela paixão tricolor. Quando aposentada, aproveitou muito o direito a ingressos gratuitos.

Eliane continuou indo ao estádio Heriberto Hulse depois do casamento com Valmir Bortolotto. Deu uma pausa quando estava grávida e enquanto o filho era muito bebê. Aos poucos foi retornando. O marido ficava em casa cuidando do filho Tiago, com pouco mais de um ano. Ela ia aos jogos sentindo uma culpa danada, ficava pensando que homem não tem o mesmo olhar cuidadoso da mãe. Imaginava que se a criança se machucasse ia sentir-se culpada eternamente porque naquele momento estava na arquibancada assistindo a uma partida de futebol. Imaginando cenários catastróficos e reconhecendo-se neurótica, conta que ficava imaginando que o sistema de som do campo ia chamar seu nome solicitando que comparecesse à portaria. “Mas a minha culpa só ia até o time entrar em campo. Dali para frente eu não sabia nem quem eu era, não lembrava que tinha casa, nem marido, esquecia que tinha filho. Era assim, uma coisa muito maluca. Lá eu liberava todos os meus demônios. Acompanhava a charanga que puxava os cantos e tocava tambor, na época conhecida como Guerrilha Jovem. Eu já era professora e na segunda-feira ia trabalhar sem voz de tanto gritar.”

A família Teza tinha um ritual para chegar ao Heriberto Hulse. O ponto de encontro era a área externa da casa dos pais no Bairro Brasília, onde ainda residem. Donildo gostava de chegar até duas horas antes. Preferia estacionar o carro longe do movimento, com receio de que fosse riscado ou batido. Estacionavam nas proximidades de onde hoje se localiza a loja Millium, numa rua atrás da extinta revendedora de motos Yamaha. Caminhavam por um atalho lateral à loja que dava acesso à avenida Centenário. Algum tempo depois, próximo a este local foi instalada a Rádio Eldorado. Depois passavam pela esquina do atual Banco Santander e iam na direção da igreja Assembleia de Deus, desviavam no sentido do edifício Lúcio Cavaler, passavam em frente ao Colegião e finalmente chegavam até as bilheterias. “Aquele vucu-vuco, aquele povo, o cheirinho do churrasquinho. Todo aquele cheiro de Criciúma, todo aquele cheiro de jogo, aquilo faz muito parte da gente.”

Passavam pela revista policial. Não podiam entrar com guarda-chuva porque a armação poderia virar uma arma. Quem não tinha capa de chuva, se molhava e passava o resto do jogo encharcado. Ficar um tempo na fila, às vezes na chuva, fazia parte da festa. Mesmo chegando cedo, demoravam para passar pela catraca em jogos de decisão.

A família entrava no campo e sempre se concentrava numa parte das escadarias da arquibancada coberta. Tinha uns três degraus de escadarias abaixo das cadeiras onde ficavam os torcedores com melhor poder aquisitivo e em cima a imprensa. Lá era o ponto mais bem localizado. Ficavam aguardando o sorteio para saber para qual lado o Criciúma atacaria e esse era o lugar que se posicionavam. “Outras vezes, nós ficávamos do lado oposto às cadeiras, na parte das descobertas chamada de geral.  “Era uma posição boa. Quando o jogador cobrava lateral, quase dava para tocar nele. Dava para ouvir os diálogos deles. Você escutava o goleiro mandando mais um para a barreira. Meu pai passava muitas recomendações para os jogadores”.

Os torcedores da arquibancada coberta sempre buscavam se posicionar atrás da goleira onde o Criciúma atacava para poder ver o gol por trás.  Faltando dois ou três minutos para acabar o primeiro tempo, começava a procissão de gente trocando de lado. Se o Criciúma tinha atacado para o lado de frente para o Colegião no primeiro tempo, era preciso se posicionar atrás da goleira do Colombo Salles e vice-versa. Quando o estádio não estava lotado demais, a família Teza fazia a cerimônia de deslocamento para o lado oposto. “No intervalo passavam os meninos vendendo cartuchos com amendoim, com os isopores de picolé. O pai gostava de comprar. Nem sempre dava, porque se o dinheiro era curto pro ingresso, imagina pra comprar alguma coisa”.

Como os ingressos eram bem mais baratos, eles curtiram muitos jogos da “baixadinha”, espaço que não existe mais. “Você ficava em pé o tempo todo. O ruim da baixadinha é porque a gente via o campo quase que na altura dos olhos. Como nunca fomos ricos, a gente sempre ia pelo mais barato”.

O fosso ao redor do campo do Majestoso foi construído somente em 1992 porque era uma exigência para participar da Copa Libertadores da América. Até aquela época não era tão rigoroso o sistema de segurança. Muita gente pulava por cima do arame farpado, muitos caíram dentro do fosso. “Hoje sabemos que se atirar um copinho plástico, anotam na súmula e podemos até perder mando de campo. Naquela época, meu Deus do céu! Atiravam garrafas d'água, latinha com líquido, sapatos, papel higiênico, molho de chave”.

No dia 2 de junho de 1991 a família Teza saiu de casa logo depois do almoço para assistir a um jogo que começou às 18 horas. Eles estavam entre os mais de 19 mil torcedores que viram o Criciúma empatar com o Grêmio e conquistar a Copa do Brasil. “Já sofri muito, chorei, voltei pra casa frustrada. Mas também voltei muito leve. Nos dias vitoriosos, o pai colocava o rádio no volume máximo do carro para escutar todos os comentários dos pós jogo. São lembranças que marcaram minha vida”. Exatamente na data em que este jogo histórico completou 33 anos, Eliane voltou ao estádio acompanhada dos irmãos e de duas sobrinhas. Os dois times do coração da família se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro da Série A. “Gosto de torcer por amor ou por raiva. Hoje não tinha raiva. Vi o Palmeiras vencer o Criciúma. Quando dois times têm lugar no coração, este fica meio dividido. A festa foi linda. O estádio estava lotado. Lembrei como é especial estar na torcida”.

Donildo tinha um rádio cinza que sempre levava para o campo. Era portátil, mas enorme, motivo de zoação dos amigos. Não desgrudava dele a ponto de ficar com a marca da própria orelha no desbotado da cor provocado pelo suor. Hoje esse é o principal meio de comunicação que o conecta para saber o que acontece no mundo, em especial, no futebol. Eliane afirma que uma das maiores dores do pai foi cancelar a carteira de sócio do clube. Ele tomou esta decisão depois de um jogo em que se convenceu de que não podia continuar indo ao campo pois não enxergava mais a bola. Há 13 anos, Donildo recebeu o diagnóstico de uma degeneração macular relacionada à idade que atingiu os dois olhos. Perdeu a visão completa do olho direito há uns oito anos e enxerga pouco com olho esquerdo. Desde essa época ele trava uma batalha contra essa doença progressiva e irreversível. “Eu vi meu pai derramar lágrimas apenas uma vez na vida, foi no dia da morte de Ayrton Senna. Pelo Palmeiras ele nunca chorou. Recordo dele embargado, a voz não saia, quando o Criciúma foi rebaixado para a Série B do Campeonato Catarinense. Sempre que fala do Criciúma, os olhos ficam cheios de lágrimas. Elas teimam em cair, mas não caem. A voz muda e a gente sabe que ele está emocionado”.

Durante muitos anos os filhos presentearam Donildo com agasalhos, caneca, chaveiro, almofada e enfeites que tinham o escudo do Tigre. Hoje, Everaldo costuma levar as tabelas dos campeonatos numa gráfica e as amplia de forma que as bolas fiquem bem grandes e o pai ainda tenha o prazer de acompanhar e preencher os resultados. “Com os óculos e o apoio de uma lupa bem grossa ele consegue pintar. A letra impecável e o capricho na pintura não existem mais, porém ele mantém o hábito que sempre cultivou com alegria.”

 A perda da visão do pai apagou um pouco a chama que acendia o coração da família torcedora e aos poucos foi desatando os elos. O avanço da idade, os problemas de saúde, a mudança de residência de um dos filhos para Florianópolis e os novos rumos da vida acabaram com os tempos de reunir o grupo todo para ir ao campo e torcer nas arquibancadas. Passaram a torcer de casa. Hoje, a agitação do dia de jogo do Criciúma acontece pelas redes sociais. “Quando tem jogo do Criciúma é o dia que mais conversamos. Estão assistindo? O goleiro falhou feio. Vocês viram este lance? Que jogo ruim, meu Deus! E vamos compartilhando as figurinhas, os memes para rir, lamentamos o gol sofrido, comemoramos os gols marcados. É o nosso jeito de continuar torcendo em família. Estamos longe do campo, mas não do futebol e jamais longe do nosso time de amor, alma garra e coração.”


 




 

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