terça-feira, 22 de abril de 2025

A arte das cordas da filha do Zé do Raio X

 

Zé do Rio X retratava rostos inacabados, órgãos internos do corpo e formas humanas sem braços ou seios, inspirados nos laudos que via na radiologia.

Roberta Rubia Rodrigues é uma artesã que cria peças utilizando madeira, pregos galvanizados e linhas coloridas de fio cerado. Uma de suas obras é um quadro circular de 90 centímetros de diâmetro, rodeado por 383 pregos e traçado com mais de dois mil metros de linhas em tons de azul. Seus dedos precisaram ser protegidos com fita adesiva para evitar cortes e aguentar as oito horas de trabalho. O resultado lembra o olho grego, amuleto de origem grega que simboliza sorte e proteção e conhecido por afastar inveja e mau-olhado.

Nas manhãs de três dias da semana, Roberta atua como professora em turmas da Educação Infantil, em Urussanga. Quando está na própria casa, localizada num sítio do Bairro São Simão, dedica seu tempo riscando, planejando e concretizando sua obra. Sua veia artística tem influência do próprio pai, José Rodrigues, conhecido como Zé do Raio X. “Meu pai dizia que queria ser chamado de Zé dos 4 Erres por causa das suas filhas Roberta, Rafaela, Renata e Rosvita. No entanto, o apelido que o consagrou veio do tempo que trabalhou como técnico em radiologia nos hospitais São José e São João. Ele era um autodidata que fazia esculturas em madeira, cimento e concreto.”

Formada em Educação Física e atuando na área há 25 anos na área, Roberta se aproxima dos 50 anos de idade seguindo os passos artísticos trilhados pelo pai José Rodrigues, falecido em 2015. Desde pequena, esteve ao lado dele, compartilhando experiências e aprendizados, mas é recente a descoberta da sua própria vocação para a arte.

Durante 33 anos, Zé do Raio X dedicou sua vida ao trabalho no setor de radiologia. Lá, testemunhou incontáveis histórias de dor e recuperação. Após a aposentadoria, encontrou na arte uma maneira de expressar suas vivências e sentimentos. Antes de encontrar sua paixão pela escultura, José enfrentou a depressão, um período difícil que o levou a buscar um novo significado para sua vida. Inspirado pelas experiências profissionais e lembranças das cenas marcantes que presenciou no cotidiano hospitalar, ele passou a criar figuras que refletiam suas memórias e emoções. “Quando a minha irmã descobriu que estava grávida, o pai talhou um Mickey na madeira e foi assim que tudo começou. Ele ia para a praia juntava galhos para aproveitar nas criações.  Depois suas peças começaram a retratar rostos inacabados, formas humanas sem braços ou seios, simbolizando os laudos e as fraturas das pessoas em sofrimento por doenças ou machucados”, comentou.

No período da pandemia, durante uma meditação, Roberta pediu em oração que o pai lhe desse uma luz para fazer algo diferente. Então, teve um sonho e acordou às 3 horas e 33 minutos pensando em cordas e pregos. Ligou o computador e começou a pesquisar. Encontrou umas madeirinhas com a palavra amor e imagens de Nossa Senhora. Com o apoio do marido, ela cortou e lixou madeiras, preparou moldes e, aos poucos, desenvolveu uma nova expressão artística. “Segui a intuição que me fazia pensar muito em olho grego, também fui criando mandalas e chacras e descobrindo sozinha esta arte. Faço isso tentando aumentar minha renda, é difícil.”

Cada peça é feita com dedicação e energia positiva, refletindo a conexão de Roberta com sua espiritualidade e a natureza ao seu redor. Para ela, criar é um ato de entrega e harmonia. “Se eu não estiver bem emocionalmente, o trabalho simplesmente não flui. A energia é parte essencial do processo e, por isso, cada peça leva consigo uma intenção de amor e positividade. Eu jamais vou fazer uma peça se não estiver me sentindo bem. Se eu não estiver em paz, a linha arrebenta, os pregos não ficam no lugar”.

José não conheceu o lado artístico da filha. “Eu peguei um pouquinho do legado do meu pai. Sei que ele sabe, que de algum lugar ele vê e sente o que estou fazendo. Ele está comigo. E essa energia, essa força, vem dele também”.

Atualmente, Roberta expõe suas obras em feiras de arte em cidades como Imbituba, Garopaba e Criciúma. Seus trabalhos podem ser visualizados no Instagram A Arte das Cordas.


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