domingo, 17 de fevereiro de 2019

Rolé dos Favelados oportuniza conhecer o Morro da Providência


Quero contar minha experiência no Morro da Providência e por alguma razão que ainda não descobri, travo com as palavras que deveriam fluir naturalmente. Uma agitação me perturba porque sinto que aprendi muito pouco sobre as favelas, conheci quase nada da realidade das pessoas que lá moram e ainda permaneço ignorante à riqueza histórica e cultural da periferia carioca. São 763 favelas espalhadas pela cidade e isto dá a dimensão do mundo que desconheço.  E, metida ou exibida mesmo, quero registrar publicamente o que vivi.
Vou dar uma volta e depois retorno a este assunto... Aproveitei minhas férias para conhecer o Rio de Janeiro. Cansei de ver a cidade pelos olhos dos outros! Fui sozinha, mas não fiquei sempre sozinha.  Preferia que uma amiga estivesse comigo, mas é bem provável que qualquer uma delas teria me impedido de andar com tanta liberdade. Caminhei por ruas que não deveria e o coração alertou para parar. Percebi gentileza nas catracas dos metrôs. Não me permitiram deixar o troco que esqueci no caixa. Chamaram minha atenção por passar em passarelas sem companhia. Curti a cidade maravilhosa em fotografias fantásticas expostas em locais públicos. Questionei o exagero da violência apresentada nas mídias e pela sacada do meu quarto presenciei bandidos armados levando um carro.Desenvolvi minha visão periférica. Passei por um processo de imersão antropológica. Retornei diferente, mas com a certeza de que quero continuar sendo quem sou numa versão melhor. Passei a admirar mais as pessoas que dedicam suas vidas às causas sociais, menos preocupadas com as vaidades humanas e conquistas materiais.
Agora quero voltar para a Central do Brasil e subir o Morro da Providência. Perdi as contas das vezes que eu disse que queria conhecer uma favela do Rio de Janeiro. Os alertas contrários fizeram com que eu pensasse que tinha desistido. Entrando no Museu do Amanhã, descobri o jornal A Voz da Favela, publicado pela Agência de Notícias das Favelas – ANF.Resolvi me apresentar enviando uma mensagem:
- Sou professora de matemática há 26 anos.  Curso jornalismo na Faculdade SATC de Criciúma, em Santa Catarina. Gostaria de saber mais sobre o trabalho de vocês. Talvez possam me ajudar a realizar o sonho de conhecer uma favela. Estou aqui para conhecer e não apenas visitar a cidade maravilhosa!
Na festa de aniversário do fundador da ANF, André Fernandes, fui presenteada conhecendo alguns colaboradores. Dentre eles, o guia de turismo Cosme Felippsen, responsável pelo projeto Rolé dos Favelados.
Combinamos de nos encontrar no sábado, dia 19 de janeiro, na estação de metrô da Central do Brasil. Eu não imaginava encontrar tantos ativistas no grupo de quinze pessoas. Participaram deste momento alguns professores que atuam no movimento “21 Dias de Ativismo Contra o Racismo”. Estava presente Renata Varella, representante do Clube das Pretas, que é um projeto de formação em cabelo natural para mulheres em situação de vulnerabilidade social. e também o jornalista Marcelo Magano e a atriz Thamyra Thâmara de Araújo que têm um canal chamado Favelados pelo Mundo.  Eles moram no Complexo do Alemão e já viajaram para países como Colômbia, Estados Unidos, México e Angola.
Tivemos o privilégio de sermos guiados por Cosme Felippsen e Hugo Oliveira que contam a história pelo viés da luta e provocam reflexões enquanto mostram as vistas dos lugares do Morro da Providência onde moram.Cosme também é conferencista internacional com o tema “Moradia, Juventude, Favela, Corpo Preto e Intolerância Religiosa. Hugo é dançarino, mestre em Cultura e Territorialidade pela Universidade Federal Fluminense – UFF, atuante na articulação local com o coletivo Entre o Céu e a Favela e criador da Galeria Providência, um conjunto de grafites que reuniu vários artistas da cidade.
Foi com o projeto Rolé dos Favelados que tive a oportunidade de conhecer a primeira favela do Brasil, que iniciou a ocupação em 1897. Eles contaram que os soldados que retornaram da Guerra dos Canudos e negros que moravam na região após a abolição da escravatura foram os fundadores.Explicaram que favela é uma planta da caatinga.
Minha curiosidade foi aguçada e para reforçar o que aprendi com os guias, fui pesquisar. “Os soldados acreditaram que iriam gozar do título de heróis da guerra, mas as pessoas questionavam se tinha sido uma vitória legítima ou um massacre. O povo queria esquecer. Além disso, eles não receberam o soldo prometido e para pressionar o governo, se instalaram num morro atrás do Ministério da Guerra, que apelidaram de Morro da Favela. Durante muito tempo o Morro da Providência foi conhecido como Morro da Favela. Com o tempo a palavra favela virou substantivo, o termo foi generalizado e passou a representar todas as favelas espalhadas pelo Brasil. Para diferenciá-la das demais, voltaram ao nome original,” explica Regina Casé, no programa de televisão Um pé de quê?.
Há várias versões sobre o nome escolhido para o morro. Uns dizem que o nome surgiu porque os ex-combatentes pediram providências das suas terras, outros afirmam que deve-se a uma igreja chamada Divina Providência tinha parte deste território.
Fizemos uma parada estratégia na Ladeira do Barroso para refletir e expor conhecimentos. Uma pergunta dos guias abriu uma roda de conversa:
- Estamos numa parte do Morro que é favela? O que é favela?
As respostas se entrecruzavam e complementavam:
- Lugares ocupados de forma irregular, desorganizada.
- As pessoas não podiam comprar terrenos e moradias e foram ocupando. Fazem os puxadinhos para acolher parentes que vêm chegando.
- Resultado da falta de políticas públicas que garantem acesso aos serviços,
- Um lugar que exclui pessoas em relação ao centro.
- Lugar com muitas casas muito juntas, grudadas, vilas que são passeios.
- Onde mora o trabalhador que desce ao centro para ganhar sua sobrevivência.
- Espaço ocupado por pobres e ex-escravos.
- Lugar que se associa ao tráfico de drogas, onde atua o poder paralelo.
Hugo também contribuiu com sua definição: “Favela é um espaço de vivência coletiva, onde a experiência de ser e estar é construída em conjunto, na partilha. Seja nas estruturas físicas ou nas relações de afetos, a opção de estar sozinha é relegada às ultimas instâncias." Cosme resume: "Foi a solução que os moradores deram para as dificuldades que foram aparecendo em suas vidas, como questões de moradia, autocuidado e possibilidades de resistência”.
Um historiador comentou que é preciso desmistificar que toda favela está no morro:
- O conceito de favela muda com a ocupação após os militares da Guerra dos Canudos. Temos sempre a ideia de que favela fica em morro. O Morro da Conceição não é considerado favela cujo processo foi o contrário, a parte rica mora em cima e a pobre mora embaixo. Outra favela plana é a da Maré.
Segundo Cosme, a Ladeira do Barroso não é considerada favela pela maioria das pessoas devido ao acesso de carros, à estética e às construções de casas. “Para mim este local é uma transição de favela. Quando alguém quer subir de vida, é necessário descer o morro porque há uma melhoria das condições, de acessibilidade.”
Já ocorreu um encontro de favelados que defendiam que as favelas deviam ser chamadas de comunidades. “Eu acho que começar a chamar de comunidade é uma forma de negar a favela, de negar a identidade e a origem. E cai na mídia a maquiagem que o governo quer dando a impressão de que o lugar está mais cuidado, de que os problemas foram resolvidos.”
O perfil Cosme O Favelado foi bloqueado pelo Facebook. Foi preciso retirar sua identidade pela proibição da rede social, que aos olhos de muitas pessoas é vista de forma errônea. Favelado se resume em barraqueiro, maconheiro, bandido e preto. Querendo mudar esta visão, ele já mostrou o lugar onde mora para mais de duas mil pessoas. “Várias delas mudaram a opinião. Alguns achavam que lá em cima não tem água, não tem luz, que as crianças não estudam. Estrangeiros e brasileiros ficam surpresos quando percebem que temos internet, antena e ar condicionado em nossas residências.”
Percebemos que a maior parte das casas é de alvenaria, raras são as feitas de madeira. Normalmente quem as constrói são negros, nordestinos, semi-analfabetos que fazem com recursos mínimos e sabedoria popular. Engenheiros e arquitetos que visitam o lugar questionam como que pessoas sem conhecimento acadêmico constroem casas que duram muito tempo. A resposta que ouvem é engraçada: eles usam barro, madeira e muito sopapo.
Paramos em frente à Casa da Mãe Glória. Este terreiro existe há 60 anos. É o único em atuação no Morro da Providência e Zona Portuária. Está localizado na mesma ladeira que tem três ou quatro igrejas evangélicas. Ele representa a resistência e a continuação da cultura africana, da dança e do culto aos orixás que é tão mal visto por preconceitos que prevalecem. Eles sofrem agressões verbais e ultimamente físicas. Cosme justifica: “Não é noticiado, mas está acontecendo em vários lugares. Pais de Santo e Mães de Santo, Babalorixás e Ialorixás são expulsos de lugares com homens armados, geralmente ligados ao tráfico de drogas. Para mim, isso é uma aproximação muito grande de dentro dos presídios que são as casas de comando. Eles são visitados por lideranças evangélicas fundamentalistas, conservadoras e desrespeitosas. Não pregam o amor de Cristo, pregam as suas próprias palavras e mais que a intolerância religiosa, o racismo religioso.”
Há uma antiga delegacia do Departamento de Ordem e Política Social – DOPS– que ainda mantém objetos sagrados que foram roubados agressivamente de terreiros, há décadas. Existe processo de requerimento para retomá-los, mas a Polícia Civil ainda não liberou.
A fachada de uma casa que pode ter sido residência do escritor Machado de Assis fez parte do roteiro. Ficamos sabendo que deve ter pertencido ao senador Bento Barroso. “A madrinha do Machado de Assis trabalhava para esta família. Há refutações de que ele tenha morado nessa casa, mas uma família que ocupou a área há 40 anos encontrou atrás de um móvel alguns escritos dele. Ele foi batizado na Igreja do Livramento em 1839, o mesmo ano em que nasceu aqui. Apesar disso esta parte da história dele não é contada”, explicaram os guias.
Os Favelados pelo Mundo me representam com a postagem que fizeram nas redes sociais, dizendo:
- O nosso rolé pelas ruas do Morro foi lindo demais, conhecemos a Galeria Providência a céu aberto com desenhos de artistas locais e de outras zonas da cidade. Almoçamos no bar da Jura, comida de boteco premiada. Tivemos o prazer de poder fotografar a Casa Amarela, espaço cultural e pedagógico no alto do morro. Esse passeio só foi possível porque fomos com dois moradores, Cosme e Hugo, que nos apresentaram a Providência de verdade sem todos esses estereótipos que vemos na telinha da TV.
Na parada para o almoço duas moradoras, Cremilda e Sonia Maria da Silva, chamaram a atenção dos guias. Elas os questionaram se eles iam nos levar até o Buraco Quente, a Pedra Lisa e no Barão. Não fazia parte do roteiro e lamentei não conhecer estes pontos. Mas, o que realmente me perturba é não conhecer os outros lados dos muros que existem em nossa sociedade. Apesar de tudo sinto que dei início a um dos meus maiores objetivos na vida que é quebrar preconceitos próprios. Este foi um passo importante na minha busca de ser uma pessoa melhor.
 
   


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