terça-feira, 24 de março de 2020

Fique em casa! Assim era Bérgamo


   Há pouco mais de dois meses eu caminhava por uma cidade do norte da Itália. Era uma turista brasileira pensando: “Bérgamo era o nome do meu professor de matemática. Será que sua família saiu deste lugar aparentemente tão singelo?” Ninguém ia me dar esta resposta. Achei melhor me concentrar na tabela com horários de ônibus. Precisava interpretar o jeito italiano de passar informações.
   Era inverno. As árvores sem folhas sabiam exibir beleza quando interceptavam olhares direcionados aos céus e às montanhas cobertas de neve. Mas, havia uma em frente a estação de metrô que destacava a vida na cor verde. Ela estava isolada, um pouco afastada das amigas, respirando tranquilamente e sorrindo sem ter os lábios cobertos. Estava bem!
   Nem ela, nem eu, nem a Ilze Scamparini podíamos imaginar que já havia uma agitação destrutiva no ar. Setenta dias depois, 70 caixões passaram por lá, transportados por caminhões blindados do exército em busca do lugar final. O barulho e o silêncio uniram-se por causa do invisível e das vozes mundiais. Cemitérios lotados, igrejas sem espaço, crematórios cheios e hospitais em colapso. Em breve, muitas árvores cederão seus corpos para que sejam registradas as histórias de tantos corpos. Uma folha não será suficiente para escrever um parágrafo de tudo o que aconteceu.
   Os noticiários abrem e fecham pedindo para as pessoas não saírem de suas casas. A população descobre que não pode viver sem mercado, farmácia e hospital. Alguns percebem que precisam dos outros e de Deus. Os números, as tabelas e o gráfico da curva ganham fama. Os líderes vivem o dilema de buscar estratégias para salvar as vidas e a economia ao mesmo tempo. As redes sociais transbordam informação e desinformação, tragédia e humor, certezas e incertezas. O coronavírus passa a ser o assunto do Planeta Terra. Enquanto isso, eu hesito em tocar a maçaneta da porta do meu apartamento porque pediram para eu ficar em casa!

OBS: Trabalho do curso de jornalismo

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