Há pouco mais de dois meses eu caminhava por uma
cidade do norte da Itália. Era uma turista brasileira pensando: “Bérgamo era o
nome do meu professor de matemática. Será que sua família saiu deste lugar
aparentemente tão singelo?” Ninguém ia me dar esta resposta. Achei melhor me
concentrar na tabela com horários de ônibus. Precisava interpretar o jeito
italiano de passar informações.
Era inverno. As árvores sem folhas sabiam exibir beleza
quando interceptavam olhares direcionados aos céus e às montanhas cobertas de
neve. Mas, havia uma em frente a estação de metrô que destacava a vida na cor
verde. Ela estava isolada, um pouco afastada das amigas, respirando
tranquilamente e sorrindo sem ter os lábios cobertos. Estava bem!
Nem ela, nem eu, nem a Ilze Scamparini podíamos
imaginar que já havia uma agitação destrutiva no ar. Setenta dias depois, 70
caixões passaram por lá, transportados por caminhões blindados do exército em
busca do lugar final. O barulho e o silêncio uniram-se por causa do invisível e
das vozes mundiais. Cemitérios lotados, igrejas sem espaço, crematórios cheios
e hospitais em colapso. Em breve, muitas árvores cederão seus corpos para que
sejam registradas as histórias de tantos corpos. Uma folha não será suficiente
para escrever um parágrafo de tudo o que aconteceu.
Os noticiários abrem e fecham pedindo para as pessoas
não saírem de suas casas. A população descobre que não pode viver sem mercado,
farmácia e hospital. Alguns percebem que precisam dos outros e de Deus. Os
números, as tabelas e o gráfico da curva ganham fama. Os líderes vivem o dilema
de buscar estratégias para salvar as vidas e a economia ao mesmo tempo. As
redes sociais transbordam informação e desinformação, tragédia e humor,
certezas e incertezas. O coronavírus passa a ser o assunto do Planeta Terra. Enquanto
isso, eu hesito em tocar a maçaneta da porta do meu apartamento porque pediram
para eu ficar em casa!
OBS: Trabalho do curso de jornalismo

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